Os dois dias seguidos passaram ásperos, quase intragáveis, era raro nós não estarmos juntos no fim do dia. Depois do meu trabalho costumava passar em sua casa no início na noite e ficávamos falando sobre tudo até o soar do toque de recolher. As badaladas dos sinos da matriz tocadas pelo bedel eram o fim de mais um dia comum, mas tudo sempre recomeçava no dia seguinte. Menos naqueles dois dias, e depois outros seriam os dias comuns. Eu não queria pensar a respeito.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
No sobrado, uma lembrança de fim de ano - Parte 2 - A notícia
Quase não consegui ouvir o som daquela máquina que deslizava no céu, mas era nítido o zunir de uma turbina dentro da minha cabeça, a lembrança de uma despedida.
Lembrança por lembrança de despedida todo mundo tem, mas essas... essas levaram partes vivas de mim. Despedir-se é deixar ir um pedaço da alma.
Posso contar no momento duas grandes datas a se recordar, mas por hora, a que mais me grita por dentro é a da tarde húmida de um dezembro que me foge a precisão.
No sobrado, uma lembrança de fim de ano.
O sobrado já estava de pé muito antes de eu nascer. E há muito vivo aqui. No entanto, cá estou, de tempos de outrora, e nunca adaptado a "época atual", que já foram várias.
O sobrado, hoje, encontra-se escuro, e não por falta de janelas abertas, pois elas estão sempre desinibidas. Mas a luz não invade mais como em outros dias costumava inundar esses aposentos.
No trato ele está todo mobiliado, talvez desarrumado e velho, mas possui de cortina escarlate a almofadas de porta, com as certas camadas de poeira, mas com todo o ar de respeito que é exigido ao trabalho do tempo.Sou a única pessoa que vive aqui, e há muito vem sendo assim, posso chamá-lo de meu reino.
Vivem também alguns fantasmas de outrora, que nada me assustam, mas por várias vezes me fazem triste. Por fim, esqueço deles.
Este é meu canto favorito, a velha poltrona com alguns furos, ao lado da estante de livros que eu tanto gosto. Não é muito iluminado para leitura, mas eu tenho meu abajú e a janela ao lado pra ajudar. A TV ainda funciona com um ou dois tapinhas.
Sem TV eu me ponho a janela, onde tenho muitas das minhas epifanias voláteis ou relembro de outros momentos.
Hoje são 30 de dezembro, foi o prólogo para que eu lembrasse de uma tarde estranha do mesmo mês, de um ano remoto. Neste mesmo dia, em épocas diferentes, eu vi um avião no céu. E isso me lembrou do peso de uma promessa a quem se ama.
...continua aqui.
...continua aqui.
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