quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

No sobrado, uma lembrança de fim de ano - Parte 4 - A despedida

Não lembro como acordei naquela sexta-feira húmida de fim de dezembro, se é que cheguei a acordar...
A importância daquela promessa faz mais sentido se você ainda lembra que eu trabalhava o dia inteiro, mas naquela manhã não havia nada que me detê-se.



1ª parte aqui.



A hora do vôo eu nunca esqueci. Às 12 da manhã, 30 de dezembro, e eu preso na minha reles salinha de estagiário, procurando um alívio dos montes de papéis que entravam pela minha porta sem ao menos dizerem bom dia. Nada adiantaria, aquele de longe era um dia normal.
Os minutos passavam e eu não encontrava uma folga que me permitisse sair com argumentos contra minha demissão por justa causa. Farto, levantei, e saí correndo pela porta para pegar o bonde das 10 e 45.
A praça do centro fervia, nada acalmava os consumistas de fim de ano que só me serviam de obstáculo.
Correr em disparada pela ladeira da igreja em busca do bonde pareceu incrivelmente inútil após a segunda curva, quando faltou energia no bairro, e eu fiquei me perguntando quais eram mesmo as vantagens de um bonde elétrico naquelas circunstâncias. Desci derrotado para a parada de ônibus mais próxima. "Preciso chegar ao aeroporto a tempo".
Três, cinco, dez minutos. Foram 12 minutos de espera, do pior tipo que você pode imaginar. E esse parecia ser aqueles dias escritos para que nada dê certo, ou daqueles que parecesse tudo mentira quando você fosse contar para alguém, o que o torna ainda mais irritante. Mas nada me importava, nada me importam as opiniões alheias, eu só precisava chegar a tempo, Deus, e como eu precisava.
As súplicas divinas não pareciam surtir efeito, o trânsito estancado pelo decorrer da avenida me fazia por as mãos a face e aceitar. Mesmo assim, precisava manter minha fé inabalada, eu havia feito uma promessa, e não fora uma promessa qualquer, era praticamente uma promessa de morte. Eu dependia daquilo para viver em paz.
Foram 15, 20 minutos roubados, até que o maldito acidente surgisse, aquela besta fumegante babando fumaça pelo capô, "Um caminhão pregado pode ter arruinado minha despedida", eu ficava repetindo isso enquanto inquieto esperava pelas próximas paradas, o aeroporto estava próximo.
Após a condução tomar a velocidade comum eu pude relaxar um pouco, por isso e porque podia ver a torre de radar do meu ponto de chegada. Havia algumas pessoas com uma farda ou algo do tipo, com o logo do aeroporto. Como nunca havia pisado ali resolvi descer com eles.
Animado, puxei o sinal de parada, Desci.
Não bastou muito para que estranhasse uma coisa, perguntei a um dos funcionários;
"Onde fica a entrada do aeroporto?".
"Bem mais pra lá, aqui é somente para funcionários". Fiquei aturdido.
"O hangar fica pra lá?", apontei a silhueta ainda um pouco distante de um prédio.
"Sim, você vai ter que dar uma caminhada". Ele respondeu, e eu já estava correndo em disparada.
Preciso chegar a tempo. Repetia mil vezes em minha mente.
Estava em frente ao aeroporto sem ar quando me ocorreu que eu teria que correr o saguão todo para encontrá-la. Pus-me a procurar.
De um lado para o outro eu corri. Já não ligava para os turistas ou quem quer que estivesse me olhando. Meu medo era de que algum segurança me parasse, então reduzi para um rítimo menos frenético e mais ágil.
Depois de constatar que ela não estava no saguão, me dirigi a uma mesa de informação e perguntei pelo vôo. Eram onze e cinquenta, e todo o check-in já havia sido feito, todos os passageiros estavam no saguão de embarque e ninguem podia sair ou entrar lá.
Não pode ser. Não pude dizer adeus.
Foi enquanto me lamentava que vi as escadas.
Atras de mim se estendiam as escadas rolantes para uma área mais discreta, onde se podia ver os aviões decolando e dava acesso as janelas altas do saguão de embarque, era minha última chance.
Corri para cima, saltei como louco os degraus, e cheguei as grandes janelas do segundo andar que ficavam altas no saguão de embarque. Procurei por ela, esquadrinhando cada metro daquele lugar com meus olhos. E encontrei.
Quando a vi meu coração disparou, bati no vidro, não sei se dava pra ouvir pela altura, mas ela olhou para cima e sorriu como não a via sorrir há tempos. indiquei o saguão principal, e ela correu pra tentar sair. Corri para encontrá-la.
Fiquei na porta do corredor de check-in esperando, até que ela surgiu, correndo.
"Você veio!", ela saltou e me abraçou.
A Persistência da Memória
"Desculpa a demora, desculpa."
"Não importa, você veio".
"Como você saiu?".
"A moça do check-in deixou, mas eu já tenho que voltar". Ao ouvir isso eu lembrei o que aquilo tudo representava. O fim.
Ela puxou do bolso uma caneta e um cartão postal ou coisa do tipo, era uma pintura de Salvador Dali, A Persistência da Memória. Escreveu nele.
Depois me olhou nos olhos.
"Adeus".
Com um abraço apertado, o mais apertado de todos, disse baixo. "Adeus".
Não sei quanto tempo passamos abraçados. Ela então se afastou, nos olhamos mais uma vez, e ela correu para onde tinha que ir. Eu fiquei lá parado, processando aquele momento.
Depois subi para onde se via os aviões decolarem, onde antes havia batido no vidro para chamá-la, e fiquei lá até ela partir. O avião no céu foi a 'última imagem dela' que ficou.
Nós trocamos cartas por um ano, depois somente eu mandei cartas, sem respostas. Por algum motivo ela sumiu. Nunca entendi o que houve, acho que o tempo fez com que eu esfriasse, então fui parando de escrever, e nunca fui atrás dela. O cartão postal estava guardado no toucador do meu quarto, e tenho uma foto com ela na sala.
Talvez um dia nos encontremos de novo, um dia vou atrás dela sim. Dizer pessoalmente que a amei demais. Será que ela nunca percebeu?
Mas agora é tarde. Você tem que ir e eu vou ver se faço essa TV funcionar.

2 comentários:

  1. Obra de arte! Muito real, a historia nos prende, é totalmente excitante, cada dia sem atualização é como uma noite sem o brilho de uma estrela, um bem q o mundo perde em uma dor que não se sente... Desejo toda inspiração a este autor incrível!!

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  2. Como já disse, os erros quase que invisíveis não tiram a beleza de suas palavras, um dom que merece ser mostrado ao mundo. Nunca duvidei do seu talento, mas confesso que estou totalmente maravilhava ao contemplá-lo de perto. Parabéns!

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